terça-feira, 3 de junho de 2008

XEQUE E MATE


Bem que eu gostaria de não soltar meus humores assim de qualquer jeito. Mas que fazer? Estava eu sentada diante daquela figura, desempenhando um papel de pessoa segura de mim e prestes a me tornar ainda um pouco mais quando eis que, lágrimas vindas lá de nem sei onde invadiram meus olhos, encheram-no completamente e, a seu talante, iam começar já a escorrer pelo meu rosto não fosse eu mais rápida. Rápida? Rápida! Um truque simples, bem idiota, aprendido nem mesmo lembro como: apertar com a maior força possível com as unhas por dentro das duas unhas dos dedos médios... até doer, doer, doer, doer... e esquecer... esquecer... esquecer. E retomar a posição anterior, as costas mais endireitadas, a cabeça quase como se não tivesse titubeado diante do terremoto que acabara de mover meus céus e terras.

A determinação muitas vezes nem é uma virtude. Momentos depois eu caminhava pelas ruas pensando na infância. Me lembrava menina. Menina e pequena. Pequena e menina. Arrastando a boneca e querendo brincar. Eu tinha tantas bonecas! O quarto cheio delas me abrigava pouco porque dentro dele eu me sentia só. As bonecas, parecendo vivas e tão belas vestidas, na verdade estavam mortas. Não conversavam comigo, nada tinham a contar. Apenas ficam lá, a me olhar antes que eu adormecesse, sem nada dizer. A vida e as brincadeiras de verdade estavam nas ruas, com as crianças nas ruas. E na maioria das vezes sem as bonecas.

Caminhei mais alguns passos e pensei nas minhas escolhas. Teriam sido apenas caprichos ou teriam sido verdadeiras escolhas? Algumas teriam tombado no poço da fatalidade? Algum dia estive à mercê de um chamado destino ou sempre fui uma voluntária da vida, uma voluntariosa criatura em busca de vitórias? Nenhuma resposta me ocorreu. O imediato não tem sido o meu forte neste sentido ultimamente. Meu corpo, pelo contrário, tem dado gritos de guerra contra peixe, leite, chocolate e tantas outras coisas que daqui a pouco acho que vou estar comendo tofu com mel. Mas porque quis insistir pela integração das coisas ainda pensei: Será que cheguei a seguir o caminho que era o meu ou fui em busca de um caminho outro apenas para, tercerizando as coisas, tentar me conhecer melhor?

Faz frio. Faz calor. Meu termômetro interno está desregulado. Minha cabeça está tentando assimilar as bagunças que a tireóide faz. É bom culpar o corpo de tudo. Aliás, é sempre bom culpar algo ou alguém de tudo. Pelo menos isto nos faz ganhar tempo. Tempo é precioso e preciso. E enquanto se ganha este este tempo se vai resolvendo... mais uns passos... mais alguns..

Ainda não consegui, por mais que tente, ultrapassar a fase do "eles se foram, legal pra eles". Ainda estou na fase: "já que todos se foram, o que é que eu tô fazendo aqui?". E não, não é depressão. É incompreensão. É um vai e volta, lá, cá, passado, presente, futuro. Uma turbulência um pouco longa que não cessa e o vôo não acaba e eu quero aterrissar, quero me sentir segura, em terra firme novamente. Faz tempo tempo demais que estou sobrevoando, tempo demais e agora estou realmente precisando aterrissar. Tá faltando ar, tá faltando combustível, tá faltando tudo. Até minha vida tá passando aos poucos na minha frente, que nem cineminha...

As bonecas no quarto, todas de vestidos tão lindos... as colchas bordadas... meus vestidos de menina... eu tão bonitinha... gostava de ir brincar na casa de uma amiguinha lá em Curitiba... na casa dela, no quintal, tinha uma casa de boneca bem grande.... e eu levava bonecas.... e a gente brincava tardes e tardes naquela casa linda... a gente brincava de casinha... a gente brincava de bonecas... com nossos vestidos branquinhos e nossos laços de fita no cabelo....



(Depois da trilha sonora de Sex the City (o filme), estou ouvindo a trilha da série House M.D., canta agora Sarah McLaclahan, "Dear God")

1 de papo!:

Anônimo disse...

um relato forte, amiga.
necessário.
entrou em meu coração.
ímportante.
para ti.
para mim.
embora não tenhamos convivido na nossa infância.
outro dia li uma obra maravilhosa:
"a louca da casa" onde a autora
diz:"escrevemos contra a morte"
Algo tão óbvio né?
mas foi ela quem descobriu...
Achei belo.
muito.
Beijos da Fatima.

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