segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

DESALENTOS


Passou das seis e claro, a noite já apontou faz tempo. Frio está daqueles de gelar ossinhos agasalhados por camadas de gordura, pele e muita roupa. Ainda há pouco olhei o termômetro e o louco teve a ousadia de me mostrar menos cinco. Duvidei e fui olhar outro que não só me confirmou mas ainda ficou oscilando pra baixo. Nestes instantes a gente dá beijinho até nas paredes de tão contente de ter casa e todos os etecéteras...

Não posso, sinceramente, imaginar os que a sociedade chama de forma quase tão comum de "SDF", os sem domicílio fixo, o seja, aqueles que o sistema, por um motivo ou outro recebeu de braços abertos porque a vida, ela mesma, já os tinha fechado.

Há pessoas de todas as idades e não pesnsem os incautos que são tão somente malandros e drogados "porque querem" que estão aí a vagar nas ruas "da amargura". No fundo, quem quer? Talvez uma meia dúzia, como dizia um amigo meu, de quatro ou cinco, que aprecia a liberdade um pouco além da conta (e por conta de alguma enfermidade...). Mas a verdade é que há crianças lá fora. Jovens adolescentes, jovens adultos, adultos bem constituídos (e desconstituídos), adultos já mais maduros, idosos; homens e mulheres. Estão todos lá fora entre pássaros, cães, gatos e ratos. Mas pássaros voam e se abrigam. Ratos sabem perfeitamente onde devem ir. Gatos, fogem e abrigam-se. Os homens e as mulheres e as crianças, assim como os cães, aninham-se uns aos outros ou estendem um olhar ou uma mão num pedido mudo de ajuda ou deixam-se morrer. Estes últimos, no máximo de um frio, de dor, de fome, mostram os dentes que sobram e ameaçam. E isto logo antes do fim. Sofro.


Tento pensar em outras coisas, olho mais além e imagens mostram cenas que poderiam ser de festa. Fogos de artifício? Brincadeiras? Não... Olho melhor e mais longamente. Observo o caminhar duro e febril das gentes que entram em guerra na data de mais desejosa paz e entristeço com a certeza de que para o nosso próximo em breve nada mais restará. Caem corpos que há poucos minutos eram pessoas que festejavam. O rosto de uma mulher se encharca, seus olhos expulsando todas as lágrimas do coração, enquanto homens impedem-na de correr. Gritos. Muitos gritos. Agora que sei que o barulho não me lembra mais as festas de criança eu também quero chorar. Ai, que a dor é grande quando ela vem assim, provocada pela mão perniciosa do ser que sabia que não havia porquê! Agora, quem tinha lar, em segundos não terá mais. Quem vivia sob um teto, agora viverá sob a mira da arma de alguém. Se o ser humano é capaz de atos dessa natureza, nem há o que imaginar. E como somos nós o próximo de alguém, o que restará para nós também ?


Volto, o pensamento volta. Nas ruas que o inverno castiga , cai neve. Num outro hemisfério, como não querendo saber quem tem ou não seu lugar dentro ou fora, quem se abriga, quem dá abrigo, quem necessita... quem é necessitado... lá a chuva é o castigo. E o desamparo amplia suas asas e sob elas abriga tantos quanto pode. Desabrigados de ontem, de hoje ou amanhã. E o pensamento percorre o tempo e as áreas não desejando, não querendo, fazendo do olhar uma oração em prol do cessamento de tantas intempéries.


Que o tempo tenha piedade dos infortúnios que abraçam a existência de milhares de pessoas perdidas pelas ruas do planeta. Que o universo tenha misericórdia das desgraças que se abatem sobre tantos que sofrem e que sabemos, tem tanto de bom a receber. Mas principalmente, que os homens tenham consciência e humildade e cessem de causar tanto mal aos seus semelhantes e a si próprio.

Um pouco de calor faz tão bem!


(O silêncio me ampara)

1 de papo!:

Anônimo disse...

Não temos como neutralizar todo o mal que há no mundo, mas sempre poderemos torná-lo melhor, através dos nossos pensamentos e atitudes, por mais simples e despretensiosos que possam parecer. Gostei muito desta crônica, Jacque.

Regina...

LinkWithin

Related Posts with Thumbnails