segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Memórias de Águas e de Sedes


Entre um gole e outro deixo o copo sobre a mesa. Observo. A água parece estranha. Mais azul. Bebo mais um gole da água e o sabor continua o mesmo: sem sabor. Num gesto impulsivo me levanto e vou até a cozinha, despejo o que sobrou na pia e vejo os pingos escoarem. Abro a torneira, espero. Mais um pouco. Encho novamente o copo de água bem fresca.
Sentada, olho novamente e não vejo azul algum. Bebo um gole. Percebo que é só a cabeça cansada que colore o líquido. Quase que instantaneamente o zunido começa. Maldita caixa de som dentro dos ouvidos! Pego o copo, despejo dentro da boca todo o restante da água, me levanto e saio furiosa.
Fecho uma porta. A segunda porta. Retiro do interior todos os sons exteriores. Nem mais uma surpresa em meu cardápio.
Dou passos para lá e para cá, a sede ainda está na garganta e o barulho infame nos ouvidos. Palavras passadas, esquecidas, enterradas; pessoas enterradas, passadas, esquecidas; fatos passados, enterrados, esquecidos. Muita história. Muita história. Incômoda história.
Pouco a pouco o que era para ser simples se complica e de pequeno torna-se sem medidas. Água. tudo gira em torno da água. Vou buscar mais. Uma garrafa, azul, de água.
Enquanto na garganta nós se formam e na língua outros se desatam, o que poderia ser utopia mostra que não é. E também não mente. E nem se esconde. Apenas vai sugerindo caminhos, como num conto infantil, como se tivessem que reapreender aos pulmões a arte da respiração.
Entre ter memória, usar a memória, guardar na memória e todos os etecéteras, a única diferença sempre está na palavra que vem antes. Na vontade que vem antes.
Sento. Estou cansada, com sede. É mesmo a água que abre as portas. Todas. E desmancha também os labirintos!

2 de papo!:

Pia Fraus disse...

água... algo tão infofensivo quanto a corda inerte da forca... bjinho

jaqueline campos disse...

você tem sede de que ?

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