quarta-feira, 23 de setembro de 2009

O Comprimido


Desceu reto garganta à baixo e ficou lá, esperando sua hora. Dou-lhe uma! Dou-lhe duas! Dou-lhe três!... E nada aconteceu. Nem um um gole de água passou por ali. Aliás, nem um pouco de saliva. Estava ali, parado, entalado, a espera de qualquer coisa e nada. Bem feito, o resto que esperasse também. E ia esperar mesmo, porque se pensavam que ele ia largar o seu efeito assim, logo ali, sem mais nem menos...
Quando as suas mãos vieram buscá-lo ele sentiu: estava mais perdida do que ele naquela gaveta. Não acendeu as luzes, nem sequer o abajur. Ficou tateando no escuro. Não é este, não é este, não é este. Até ficar com a mão cansada e sentar na cama. No escuro. E recomeçar, com as duas mãos, até achá-lo, ali, descansado, no canto.
Sabia que estava arranhando. A tosse foi automática. A água deveria ser também. Por que não era? A saliva veio e foi pouca, muito pouca. Ele continuava onde não deveria estar, a caminho de onde deveria ir, destinado a fazer um efeito que poderia fazer bem ou mal. Iria depender muito.
Ela olha para a água e finalmente bebe. Bebe pensando na agonia de sentí-lo ali ainda e imaginando se dez iguais a ele não o ajudariam a descer melhor do que a própria água. Descer até o estômago ou subir até o cérebro? Tudo o que ela queria era a calma de um efeito duradouro. Permanente seria pedir demais...
Ele escorrega, inicia lentamente a descida. Se ele tinha ouvido bem o que andavam falando naqueles recantos, e ele sabia que tinha, ele não era o primeiro a passar por ali nos últimos dias. Pelo jeito, muitos como ele e semelhantes. De repente sente-se perdido novamente e vai se dissolvendo, dissolvendo, até fazer parte do que já fora.
Ela levanta o corpo da cadeira e ergue os olhos em direção aos céus que apontam da janela. Talvez seja este. Pode ser que seja este. Quem sabe seja este. O útlimo, o certo, o que fará com que a dolorosa agonia cesse. Até a próxima investida.


(Ouvindo - nesta trégua oferecida de algumas horas - músicas, que sem elas nem me sinto viva! Nelly Furtado canta Say it right)


0 de papo!:

LinkWithin

Related Posts with Thumbnails