quinta-feira, 22 de julho de 2010

UMA PROVA DE FOGO

Era o primeiro ano do Científico e eu nunca tinha colado. Dois fatos. Para muita gente o primeiro sim e o segundo provavelmente uma mentirinha boba. Mas não, dois fatos. Eu acabara de entrar no primeiro ano do curso Científico, estava cercada de colegas que acompanhava desde o ginásio (alguns desde o final do terceiro ano primário) e professores de fazer inveja a qualquer universidade por aí pelo mundo. Estava radiante. Um monte de “matérias” novas, coisas diferentes para conhecer e estudar. Sim, eu adorava aprender. Aliás, adoro. Aprender sempre foi primordial na minha existência. Nas aulas eu bebia (com muita sede) as palavras dos professores. Fazia anotações, refletia. E uma coisa que aprendi com meu avô: quando sentia a necessidade, conversava sobre o assunto (muito com ele mesmo!) e pesquisava, pesquisava, buscava! Ah, livros! Naqueles idos anos não tinha a maravilhosa internet e o santo Google, então os livros eram nossa salvação. Acho que por isto eu os amo ainda tanto.
Logo no início dos cursos, poucas aulas passadas, ainda tentando compreender as matérias e os professores, um deles (muito sério e de pouca conversa) marcou uma prova. Prova de Biologia. Foi pânico geral. E quando digo pânico, não digo um medo aqui e outro ali. Digo pânico. Todo mundo dizendo, “ai meu deus”, “ai ai ai” e por aí vai. E começaram as tramóias e as preparações de cola. Fui perguntar para um colega:
- Por que é tão difícil assim?
- Porque ele roda. Logo de cara. Ele roda a gente porque dá a pior nota de todas!
Apavorei. Eu e as minhas notas todas bonitinhas não queríamos acolher uma coisa horrível daquelas. Pensei. Mas não muito. E no dia fatídico, usei a estratégia geral: escrever nas carteiras certas partes essenciais dos textos que ele explicara nas aulas anteriores.
Parágrafo e pausa aqui para entender o Professor Márcio José Rodrigues. É preciso saber que ele sempre foi um homem inteligentíssimo e muito culto. Na época, não perdia tempo abrindo livros e nem nos mandando abrir livros. Lá na frente, cheio de segurança, falava do assunto que lecionava como quem contasse fatos da própria vida. Ficava em pé, algumas vezes encostava-se na sua mesa, noutras desenhava esquemas no quadro-negro. Mas sempre sério e compenetrado. Não dava mole. Pelo menos não naquele começo de ano...
Todas as carteiras preparadas (cadernos embaixo delas também, livros no chão, papéis no colo e etc.), ficamos à espera do professor. Naquela manhã ele entrou sorrindo. Sorrindo. Olhou para nós como quem olha para crianças travessas e começou um discurso que sentíamos que seria especial:
- A prova está aqui. Já vou distribuir. Mas antes queria fazer uma advertência. Coisa pequena. É que tenho muito carinho pelo material da escola. Todo material da escola. E creio que vocês, como cidadãos que estão se tornando, devem ter também. Então, logo após a prova vou passar de carteira em carteira para verificar o estado de cada uma. A que estiver com o menor rabisco, o menor risco, será enviada para conserto. Claro que o conserto será feito pelo Sr. Conrado Riccieri nosso melhor marceneiro. E claro que será o pai de vocês o responsável pelo pagamento.
Para quem não tem a menor idéia, o Sr. Conrado Riccieri era um artista! O marido da dona Joana, o pai amoroso daqueles filhos todos, o italiano meio soturno radicado na Laguna. Um artista que com suas mãos transformava qualquer pedaço de madeira em móvel de requinte, em peça de arte.
Mas voltando ao Professor... Dizendo isto ele pediu ao aluno da frente para distribuir as provas e saiu da sala. Suspiros, respirações cortadas, gritos consumidos pelo espanto! Não creio que alguém tenha colado. Todos os que escreveram nas carteiras (me incluindo!) fizeram a prova voando para ter tempo de tentar limpar um pouco a miséria feita. Ninguém pensava mais em nota...
Engraçado é que ele só voltou para buscar as provas no final da aula. E nem olhou para as carteiras ou para nós. As notas, baixíssimas, chegaram na aula seguinte em meio a lágrimas, decepção e alívio diante da lembrança das carteiras sendo trabalhadas e transformadas pelas mãos do Seu Conrado.
Depois deste fato o Dr. Márcio passou a ser um professor descontraído, amado por todos, mas principalmente respeitado. Dava seus cursos, travava conversas construtivas conosco, seus alunos, criava pesquisas que nos levavam a descobertas sempre bem-vindas.
Acho que ele sabia exatamente o efeito que o Sr. Conrado Riccieri e o amor pelo material escolar teriam sobre nós.
Em todo caso, continuei refletindo, pesquisando e conversando. Cola? Carteira? Deixei pra lá. Coisas que podiam sair muito caro, eu tinha descoberto isto no meu boletim!

1 de papo!:

Suziley disse...

Bela lembrança e boa lição que partilhas conosco, Jacque. Que tenha um bom dia, beijos no seu coração ;)

LinkWithin

Related Posts with Thumbnails