sábado, 21 de agosto de 2010

Meu último vício


Entrei no hospital às 3 da manhã de segunda-feira depois de um estrogonofe e de um pavê de abacaxi. Com certeza tamanha combinação alimentar juntamente com as dores que já vinha sentindo, acabaria por ser fatal para a vesícula que já andava chorando suas mágoas em forma de cálculos. Mas a verdade é que o estado já estava mesmo agravado (sem meu conhecimento) há um bom momento e, apenas deixando entrever, vez e outra, que a balança estava pendendo. E não para o bom lado.
No hospital as primeiras constatações: tinha um problema sério para ser resolvido e não, eu não voltaria para casa no mesmo dia. Foram passando as horas e eu, anestesiada pela morfina, sentia ao longe ao dor que não abandonava o cerco. Todas as medidas enquanto o sol cumpria seu retorno incluíam me furar toda, me encher de remédios e informações que eu nem fingia querer entender.
Já no correr no dia fui prevenida (e como!) de que não havia dez soluções: era operar ou operar. Fui transferida para um quarto no nono andar com as precauções de regra e logo caiu como uma bomba a sentença na minha cabeça: estava na lista de urgências para o bloco operatório. Poderia ser a qualquer momento.
Medicada e estabelecida fui sentindo abarcar minhas águas uma grande enxaqueca. Sem forças para avisar ou pensar no remédio exclusivo para aquele mal, me abandonei. Enquanto sofria calada sonhava com uma xícara de café e via se distanciando as possibilidades de sair daquele quarto sem cortes ou furos. Vinte e quatro horas passaram.
Estava ainda nos delírios com meu cafezinho e com a delícia de estar em casa. Mas a enxaqueca já instalada e as dores violentas na região do ventre sendo sem retorno, nada podia fazer. Nem falar. Olhava para o teto e para o nada. Finalmente, súbitos como um raio, chegaram para me buscar.
Fui levada na mesma cama, transportada rapidamente para o bloco. Eram quatorze horas e quarenta e cinco minutos. Menos de uma hora depois já estava enturmada com a gang de anestesistas e assistentes que simpaticamente me assegurava e controlava os últimos detalhes. Mais ou menos por este momento foi que comecei a ouvir, claramente, as palavras que vinham e formavam, vagamente, algo nada agradável: aguda, complexo, grave, complicação. Hum..., pensei... isto não tá me agradando. E entendi que o melhor a fazer era lembrar do Santoanjodosenhor e colocar calmamente a situação nas mãos devidas.
Novidade, nos últimos instantes de lucidez antes da faca vi o médido assinando o local da operação! Era praxe, marcar e assinar para não ocorrer erros.
Respirações, oxigênio, dormi. Quando acordei estava na sala de reanimação. Estava com frio e tinha tubo na garganta e no nariz. Naquele exato instante pensei o quão distante estava o meu pequeno e puro café.
A notícia era boa: tudo correra bem, várias pedras retiradas, estava tudo muito ruim mesmo mas foi retirado. Mas a notícia continuava: uma pedra havia se escapado da vesícula e em 24 horas eu teria uma segunda e diferente cirurgia. Se todos se dispunham a tudo tão bem explicar, note-se que a um certo momento o que se mais quer é não ter explicação alguma para ouvir. Ah, o silêncio!
Mais 24 horas. De enxaqueca, dor no ventre agora marcado pelos quatro furos da operação recente. Os tubos não facilitavam a vida e o jejum desde domingo à noite só me fazia querer dormir sem poder.
Quinta-feira. Se disseram que vinham ali pelas oito da manhã, adiantaram-se. E lá fui eu mais uma vez passear de cama pelos corredores e elevadores em direção das salas de cirurgia. Mais anestesistas, demais médicos, assistentes, procedimentos, explicações, oxigênio, dormir.
Desta vez o despertar foi um pouco mais lento, o frio rondando. E lá veio novamente aquele pensamento reconfortante em meio ao ambiente gelado: ah meu cafezinho, cheiroso e quentinho!!
Já no quarto, algumas horas depois, bem mais tarde veio o resultado. Tudo correra bem novamente e as pedras fugitivas (sim! sim! eram várias!) haviam sido finalmente capturadas em órgãos distantes!! Agora, mais alguns exames (eu olhava meus braços já azuis) e muita, muita paciência para a recuperação pois a coisa fora grave mesmo.
Sexta-feira. Estou deitada aqui ouvindo o barulho da rua. Não resisti quando passaram pelo corredor, entraram e me ofereceram um cafezinho... Aceitei correndo! Principalmente porque minha primeira refeição em cinco dias tinha acabo de acontecer.
Mas que coisa, que coisa! O que fazer com os vícios? Meu café se fez sentir estranho, com um gosto de bile, amargo, muito mais amargo do que aprendi a amar. Por certo um golpe da vindicativa e arrancada vesícula.
E enjoada e de cara feia estou aqui pensando: será que estou prestes a abandonar o meu último vício????

3 de papo!:

Suziley disse...

Oi, Jacqueline:
Também já passei por uma cirurgia, mas no meu caso foi apendicite. Desejo melhoras e pronto restabelecimento. Com ou sem vícios. O importante é que está bem. Um grande beijo e um bom final de semana ;)

Lorêny Portugal disse...

Nossa, Jacque...Que susto, hem? Ano passado, nesta mesma época tiv e a exração de minha vesícula, mas à noite já estava em casa, tomando meu cafezinho...rs! Boa recuperação! Fique bem e com os anjos! Rezarei pra qeu fique boa logo!
Beijos!

Regina Carvalho disse...

Também já perdi a minha, JAque, e podes crer que estou melhor sem ela. Garanto que tudo voltou ao seu sabor noemal... e até mais saboroso que antes.
beijão.

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