segunda-feira, 6 de setembro de 2010

ENTRE OS MORROS DA MINHA INFÂNCIA


Passo a passo em minha mente vou pisando as ruas. Foram muitos carnavais. Muitas despedidas e muitos reencontros. Muitas festas, muitas tristezas. Muitas chuvas caíram leves ou ruidosas e com elas lavaram os paralelepípedos e meu rosto e minhas vivências.
Cresci menina-menino. Brincando de casinha e de Tarzã. De casinha brincava fazendo comidinha em loucinhas de barro ou em louças plásticas imitando a vó tão fina. De Tarzã iniciava uma luta feminista pois ser a Jane não me agradava muito: queria ser herói, pular de cipó em cipó e salvar os fracos.
Minha infância, viajando entre estados, conheceu as hortênsias azuis e os caminhos longos no Paraná. Viu as estradas e as montanhas de Santa Catarina. Muitos hotéis, muitas estradas. Mas foi quando ela estacionou entre os verdes morros da Laguna, morros que volteiam a cidade como um colar natural, que minha infância abriu asas.
Tinha amigas para brincar de boneca de verdade: Beijoca, Amiguinha, Gui-Gui (esta última que ria, ria e eu adorava ouvir o seu riso que me fazia rir também!. E tinha amigas para brincar de bonecas de papel, recortadas de revistas ou compradas na banca, aquelas que já vinham com roupinha...
Uma vez vi um tio meu (se ele ler vai lembrar...) muito bravo. Ele que nunca ficava bravo comigo. Estava viajando e encontrei sob sua cama um monte de revistas. Que alegria eu fiquei!! Naquelas revistas havia algo inédito: muitas, muitas bonequinhas sem roupa precisando urgentemente ser recortadas para ganhar roupinhas desenhadas por mim! Foram dúzias de novas bonecas para minha caixinha e depois dúzias de tapas e castigos de minha mãe por arruinar uma coleção de revistas que, como eu poderia saber, eram apenas para adultos!
Uma outra vez, brincando de ré de esconder, aquela de correr e gritar “33” quando chegava do esconderijo antes da pessoa para quem sobrasse procurar. Pois é, corri tanto e tão rápido que me joguei na parede com os dois braços e gritei feliz: 33!!! E entortei os dois pulsos que ficaram enfaixados durante um bom momento!
Tem aquela vez que, muito danada que eu era, joguei a sandália de uma amiga no meio da rua. Ela me mandou buscar e eu não fui. Ela foi, pegou e em seguida jogou a minha. Mandei buscar, ela não foi e minha reação foi espontânea: uma surra separada apenas pela mãe dela que, a esta altura, já estava acostumada com meu corportamento nem sempre muito adequado às boas meninas! Naquela época minhas respostas vinham mais rápidas pelas mãos do que pelos lábios.
Pendurada em cipós e em meus sonhos vivia brincando pelas ruas: desfile de modas no Jardim da cidade, jogo de vôlei improvisado em terreno baldio, “roubos” de alface, peras, goiabas... E a receita que adorava: comer a pera com a alface e sal. Para horror das amigas e meu deleite.
Uma vez me deram uma linda pitanga. “Come, é pitanga docinha”. Comi. Engoli. E foi muito gelo para acalmar meu desespero de ter comido uma enorme pimenta vermelha. Claro que quem me deu apanhou muito depois que os gelos que o tio Paulo me deu acalmaram minha dor e minha raiva!
Minha primeira bicicleta não durou uma semana. Aquele objeto especial e alaranjado que minha mãe me deu com muito custo partiu em poucos dias. Alguém simplesmente levou, nunca devolveu e me deixou chorando muito mais do que a semana que tinha passado.
Gostava de ir à praia, subir o morro com as amigas, os amigos e, claro, sempre alguém de mais velho que se responsabilizava (pobre de quem!) por nós.
Num destas vezes a responsável era minha mãe. Lembro até hoje dos seus gritos na beira do mar: “Sai daí menina! Sai daí já! Não tá vendo o quanto está fundo! Volta já pra cá! Ah, mas eu te pego!” E eu lá, testando as ondas, navegando as águas fundas daquele mar grosso cheio de espumas brancas.
Mas na praia também gostava de me jogar das dunas, altas dunas, e chegar embaixo parecendo um filé à milanesa! Ou de brincar de se enterrar deixando apenas a cabeça de fora! E os castelos, quantos castelos! Cidades inteiras para serem levadas pelas ondas vorazes!
Amava a escola, tanto no Paraná quanto na Laguna. Passei por várias, lembro com carinho dos professores e tenho a certa impressão de que todos eram anjos bons. Como dona Marta, aquela criatura doce que me abriu os braços quando, no final já do terceiro ano primário, cheguei tímida para uma nova fase da minha vida. Tive tantos colegas! Muitos deles chegaram à vida adulta e, coisa fantástica, são amigos que guardo até hoje.
Aliás, foi nesta fase que também fui colocada numas aulas de catequese para fazer primeira comunhão. Oh, senhor, o caos tinha chegado. Infernizei tal qual um diabinho as aulas da boa irmã Analuzia que fazia o que podia para me conter. E na véspera da primeira comunhão fui me confessar com o Padre Claudino.
- Pode começar minha filha!
- Começar o que?
- A contar os pecados!
- Pecados? – respondi do alto dos meus nove anos.
E ele todo paciente respondeu: - Faz assim, vou dizendo os pecados e vais me dizendo se fez ou não!
Concordei e saí depois da “cabaninha do padre” toda feliz pois minhs peras e goiabas tinham me rendido algumas ave-marias e pais-nossos.
Mas não podia ser diferente e no dia da comunhão, depois de espernear pois meu vestido era curto e eu queria comprido, ainda aprontei na festa. Todos tomando café e comendo bolo e eu sem parar. Até que um dos meninos, completamente sem querer, derramou café na minha alva vestimenta. Foi o mote pra agarrar o coitado e começar a bater. Festa encerrada a irmã pediu discretamente para minha mãe me tirar dali. Mais uma vez tinha conseguido diria minha mãe.
Embora pelas ruas vivesse sempre correndo e quebrando (não exatamente recordes), pulando e brincando, em muitos momentos escolhia a reclusão quase total. E me enfiava em meu quarto para recortar, colar, escrever, ler. Ficava lá, ouvia o chamado dos amigos mas não queria simplesmente responder. Queria uma paz que eu nem sabia exatamente o que é que era.
Num destes dias, do quarto ouvi baterem na porta e minha mãe vir da cozinha resmungando: “- O que será que ela aprontou agora???”. E eu, do meu cantinho: - Não fui eu não mãe, tô aqui no quarto! Mas ela já estava na porta respondendo que provavelmente eu não estava. Ou talvez nem tivesse sido pra mim!
Minha mãe passou poucas e boas comiga. Ela e meu pai. Sob meu ar semi-meigo, havia uma peralta que se dividia em períodos com a menina estudiosa e calma.
-Aviãoooooo! Traz mais um irmãozinhoooo pra mimmmm!
- Deus me livre, gritou minha mãe!, se ao menos eu soubesse que fosse como teu irmão... Mas só de pensar que pode vir como tu... (era a traquina deixando rastros!).
Minha mãe na casa dá vó Marta me danto uns cutucões embaixo da mesa ou por trás da vó para eu parar de comer:
- Deixa a menina comer, Terezinha!
- Mas mãe, ela já comeu demais!!!
E eu lá, agarrada no aguidal (era assim que eu chamava o tal alguidar) de barro preenchido com pirão daquele feijão inigualável e aquela arraia seca e ensopada que eu amava de paixão!!
- Chachá se eu fosse tu pagava o hospital por mês, ela vive aqui dentro esta menina – dizia o Dr. Oscar para um pai todo chateado.
- Pois é...
E eu deitada na mesa, o braço inteiro aberto depois de atravessar uma porta de vidro na casa de minha vó esperando para ser costurada. E fui. Mais de trinta pontos.
Aliás, o Dr. Oscar tinha razão. Na minha infância fui assim, mais ou menos, uma campeã de pequenos e médios acidentes.
A vó Yvonne que me tomava as lições, me ensinava, me cobrava:
- E a capital da Itália é...
- Roma...
Para depois, quando estivessem entre amigos poder dizer o quanto a netinha era inteligente: sabia as capitais de todos os lugares no Brasil e no mundo (juro que já esqueci 90%!).
Os natais na casa da tia Elisa, tão carinhosa; os quibes da vovó Diba; o piano que eu adorava jurar que um dia eu iria aprender e ali ensaiava sem tom.
Os primos maternos e paternos que aprendi a amar a vida inteira mas que algumas vezes odiei como se faz com quaisquer amigos de verdade!
Descansava da atribulada vida de criança no colo de meu avô Abelardo. Sua calma me invadia e me dava tudo o que eu precisava para ser apenas o peixinho doce que ele amava tanto. Perto dele eu tinha não só a segurança, mas a certeza de que podia ser criança porque ele estava lá, para o que desse e viesse com seu amor maior do que o mundo.

1 de papo!:

Suziley disse...

Que texto lindo, Jacque. Ele nos prende do inicio ao fim. Aliás, as suas peraltices são fantásticas...hehehe!! Êta, menina danada, heim?!! São boas recordações, sentimentos de uma vida. Obrigada por partilhá-los. Adorei. E estou rindo até agora...hehe!! Também brinquei com as bonequinhas de papel. Um grande beijo no seu coração, bom dia ;)

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