sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

NA CASA CANSADA


O cheiro de velho atulhava o local. Velho mesmo, com mistura de mofo, lembranças perdidas e restos de móveis cansados. As janelas estavam fechadas, as portas trancadas, mais da metade do assoalho já havia partido. Ele estica as mãos até o chão e traz com elas um pedaço de papel, extravagantemente branco, para perto dos olhos. Lia-se ainda: ... e no dia que eu me for desta casa levarei comigo toda a ... . Adivinhava a voz dela dizendo aquilo, raivosa, alto, menina: – E no dia que eu me for desta casa levarei comigo toda a vida que ela tiver, todinha, está entendendo? Não vou deixar nada! Mas o papel amassado também tinha cheiro de velho. Fazia tempo. Tempo demais. Ele jurara que valeria a pena, que sua partida seria temporária e necessária, mas quando voltara, três anos depois, a casa estava assim, vazia dela. Só seu corpo estivera esperando por ele por dias e dias infindos, mas os vizinhos se incomodaram e tiraram ele também de lá, o corpo velho e sem vida. Agora ele estava ali tentando reatar com seu passado, mas sem ela. Tentava resgatar o que ainda poderia ser vivido, mas sem ela. Também estava velho, sua existência embolorada, mas decidira tentar. Ia começar jogando os móveis fora.

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