sábado, 5 de março de 2011

Amém


Quando eu era pequena não aprendi a rezar
as missas eram peças de teatro
e só entendia o amém
os pés descalços sobre os paralelepípedos quentes e sobre as calçadas estreitas
dentro e fora de casa as missas para dizer amém
vidros de tinta e vasos e bolas de natal e um pirex cheio de gratin
todos e eles e mais deles todos eles pássaros encantadores
pássaros engaiolados sem cantar e a voar rasantes pelas salas
nas missas de todo o dia onde rezar não se sabia
mas onde o amém era preciso, era carente e um presente
dizer amém
para as vozes em liturgia e os gritos sem sintonia, reclamar anjos calada, recitar mantras inventados e sempre dizer
amém
nos escuros dias e nas paredes claras de sol e de lâmpadas, iluminações de missa,
as velas contrapondo o medo na falta de luz, de tanta luz.
e de ouvido a música apreendida era uma reza nem pedida, era uma reza desmedida,
era o santo anjo da guarda e depois dele
dele o santo anjo do quadro e da ponte e das crianças
depois do santo anjo do senhor vinha o amém.
amém para depois da calmaria e antes da tempestade, amém.

(Ounvindo Yo-Yo Ma interpretando Bach)

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