sábado, 4 de junho de 2011

Quem é você mulher?


Eu não saberia dizer quem sou eu. Um anjo me concebeu, levou o amor de um homem ao ventre de uma mulher. Nasci deste ventre e posso dizer, não sei se ela, a quem chamei mãe, também saberia responder.

Sei que antes dela anjos bendisseram outros amores e preencheram ventres e tantas de nós nascemos. Dizem que viemos de uma primeira, criada e concebida pelo amor eterno.

Aprendi a caminhar com as mãos e os pés e caminhei pela vida e pelos anos levando e trazendo de mim e de muitos. Pisei chão firme e areias movediças; muitas vezes levantei sozinha, algumas vezes fui erguida por mãos humanas, outras ainda, por mãos divinas. Trilhei estradas que me levaram a lugares onde fiquei por um tempo; peguei atalhos que me privaram das verdadeiras paisagens. Conheci rotas longas e curtas, cheias de pedra e de flores. Encontrei de tudo.

Minhas primeiras palavras fizeram ecoar sorrisos ao meu redor. Mas na sequência da vida nem sempre foi assim. Falei coisas das quais me arrependi, guardei palavras em silêncios sem sentido. Ouvi o que queria e o que não queria. Pedi para que houvesse mais e mais som. Supliquei pela paz do silêncio. Me pediram sigilo e me disseram para cantar. Vozes existiram fora e dentro de mim.

No princípio todo o meu desejo era fundir com a mulher que me deixara sair de dentro dela. Queria estar sempre o mais perto possível, dentro, bem dentro, ainda mais se possível fosse. Depois, aos poucos, fui me afastando. Cheguei ao ponto de desejar nunca mais ver o cordão invisível que me puxava. Mas com o tempo o cordão foi tornando-se visível, forte e em tantos momentos da minha vida foi a única coisa que me segurou e não permitiu a queda em precipícios e penhascos. Também aos poucos fui voltando, me aconchegando, querendo novamente o colo que me neguei.

Senti medo do escuro em algumas ocasiões e em outras apaguei eu mesma as luzes. Corri de lobos em florestas desertas, mas também cacei lobos em florestas superpovoadas. Senti a força dos meus braços e pernas e toda a fraqueza que os mesmos membros podem ter em certos momentos. Fui o estandarte de algumas batalhas e noutras simplesmente me escondi atrás de cortinas.

Lutei muito. Lutei contra os moinhos e contra monstros. Enfrentei heróis e vilãos. Combati sentimentos e pensamentos. Disputei espaços. Certas vezes venci e acordei depois. Noutras, perdi e não tive como acordar. A realidade e os sonhos me pregaram muitas peças!

Brinquei com nuvens e viajei com o vento. Chorei lágrimas de chuva e embraveci com os trovões. Fui calor de verão e suas tempestades. Gelei como o mais frio inverno e deixei cair de mim as folhas de outono esperando a renovação.

Escrevi poemas cheios de emoção e sem poesia e fiz poesias com olhares que não pediam palavras. Li mais linhas do que podia, folhei a vida, tentei entender, busquei soluções, encontrei contradições, fui ao fundo de questões que me trouxeram cada vez mais indagações.

Encontrei quem me apontasse o dedo e dissesse: Ei, você, mulher! E eu, surpresa de ainda ser a menina de um dia, busquei em mim mesma as formas e as experiências que me dessem a certeza, o orgulho ou a resposta de ser quem foi chamada.

Ouvi tantos chamados! Respondi alguns, me fiz de surda para tantos outros.

Não me fechei em opiniões, não tranquei meus olhos na obviedade. Busquei sempre o que pudesse haver por trás do reflexo no espelho.

Tantos caminhos e dias, tantas gentes e situações depois de minha concepção, ainda não fui capaz de te responder. Não sei quem sou. Sei apenas que vivo nascendo e morrendo, dando e tirando vida, tudo isto porque escolhi viver.

Talvez para responder por enquanto tua pergunta eu responda: sou uma tela em branco ou notas musicais soltas ou barro no chão. Espero que o artista em ti desabroche e venha até mim para que eu também possa despertar.

E você, quem é você, homem?

2 de papo!:

Anônimo disse...

Faz tempo (há mais de um mes) não visito blogues nem sites. Resolvi dar um passeiozinho por alguns e uma espiada aqui em Genebra.
Eu poderia ter lido e ido embora mas é que gostei tanto deste texto.
Muito. Muito, muito mas muito mesmo! Parabéns, amiga.Bj daqui da Laguna. Fatima.

Anônimo disse...

Para não morrer de desespero e solidão,me alimento de luz.Luz de sábias palavras,são balsamo para qualquer tristeza.

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