segunda-feira, 27 de junho de 2011

Um anjo e um homem



Havia um anjo que, cansado do céu, pedira licença para partir. Queria conhecer outros lugares, o sabor das frutas (quem sabe das carnes), cruzar horizontes, afundar nas linhas debaixo daquele infinito do qual ele conhecia apenas a parte superior. De tanto atender às preces humanas, de ser chamado anjo da guarda, amigo, companheiro, santo... De tanta responsabilidade ele agora queria somente o alívio de nada mais poder conceder e por ninguém interceder. Pretendia alcançar a graça da humanidade, um benefício que os seres viajantes do planeta transformavam em uma cruzada desgraçada e muitas vezes sem sentido. O anjo já tinha feito todos os planos e estava pronto para partir. Suas asas repousavam ao seu lado, junto a outros pertences que não levaria consigo. Poucas despedidas depois, estava à caminho de sua nova vida. Não percebia, mas seu corpo seguia já com outra densidade e parte dele havia ficado para trás. Um dia notaria que suas asas tinham vindo junto com ele, apenas agora se chamavam alma e estavam dentro do corpo, invisíveis, presas, limitadas. E sentiria quando adormecesse que o que chamaria sonhos seriam os momentos em que suas asas se abririam e ganhariam os céus. Como nos tempos em que, anjo livre, circulava pelo universo vibrando ao chamado dos homens.

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