sexta-feira, 15 de julho de 2011

Na casa cheia de luzes


O anel que usava tinha pertencido a alguém de sua família, sua bisavó. Um anel que tinha mais histórias do que ela mesma. Enquanto olhava a pedra do anel e via refletir o brilho tentava imaginar o que poderia estar ali contido entre felicidades e tristezas. Ela não conhecida absolutamente nada do passado dos seus ancestrais. Não tinha a menor ideia do que tinham sido, do que tinham vivido. Seu único elo com eles era aquele anel recebido da mãe num dia em que ela tinha bebido muito. Tirara do dedo longo, passara-o pelas unhas vermelhas impecáveis e dissera: - Pega! Era da minha avó. Mas é melhor você ficar com ele antes que eu canse e venda! Desde aquele instante ela usara o anel todos os dias. Naquela casa onde todas as moças eram suas tias e onde a tia mais velha já a estava ensinando a ser e agir como as mais velhas, ela não era a única a usar anel. Mas por certo era a única a ter um de bisavó. Na verdade, as outras moças na maioria nem tinham mãe, era o que elas diziam. Nem pai, nem tios e nem primos. Por isto era ela quem cuidava das crianças enquanto todo mundo dormia ou trabalhava. Pouco importava se com doze anos ela pudesse também ser ainda criança. De dia enquanto alguns deles iam para a escola ela ficava com a tia aprendendo a se arrumar e a fazer moços felizes. De noite, tomava conta das crianças para a mãe e as tias trabalharem. Morava numa das casas mais alegres da rua. Tinha luzes, música e festa todos os dias, de tarde e de noite. Olhou mais uma vez para o anel e acariciou a pequena pedra: vou dar para minha filha quando ela crescer. E subiu as escadas para ver se a pequena Luisa já tinha acordado.

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