domingo, 17 de julho de 2011

O sarampo, o sol e a janela da mãe


Nas ruas desertas um sol aberto e generoso banhava os paralelepípedos. Por detrás da janela, olhos curiosos espiavam todos os passos.


- Sai desta janela menino! Olha o sarampo vai te cegar!

Triste, ele desceu da cadeira e se jogou da cama. De lá tentava ainda esticar o pescoço e espiar. Nada. Esperou a mãe sair novamente para voltar à janela, afastar as grossas cortinas e de novo observar a rua.

- Se ela soubesse...!

Trinta e sete anos depois, óculos sobre o nariz, livro nas mãos, ele lembrava da mãe, do sarampo e do sol batendo na janela. De um olho não enxergava mesmo que não parecesse. E tinha guardado com ele a dúvida: será que havia verdade naquelas palavras? Não tinham sido só ameaças em vão para aquietar o menino doente?

- O senhor tem um olho que não desenvolveu!

Fosse o que fosse hoje era sim. Lembranças do sol, da janela e da mãe. Tudo já fazia parte do passado, tudo tinha se ido como sua visão. Melhor botar a culpa no sarampo...

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