domingo, 7 de agosto de 2011

Sem adeus

Sentado na mesa com o café e o pão frente a frente com ele sentia o coração pulsar forte e o humor bufava como um animal raivoso.

- Não vai dar, não vou aguentar mais. Na verdade eu não aguento mais. Se continuar assim eu vou me embora, me separo, te deixo. Pra mim não dá mais.
Do outro lado da mesa ela bebia silenciosa o café. Pelas suas contas estas frases, juntas assim, ela já ouvira tantas vezes quantas pudesse guardar. Infelizmente não entravam por ouvido e saíam por outro. Entravam e cravavam o coração como lâmina fina e cheia de dentes.
Era todos os dias do mesmo jeito, nem as palavras mudavam.
Um dia, não sabia contar quantos depois de uma destas vezes em que, ferida, ouvira novamente as mesmas palavras e ameaças, desencantou.
No dia seguinte do desencanto dela, ele sentou para tomar o seu café. Ninguém tinha acordado ao seu lado e na mesa não tinha ninguém para compartilhar o café da manhã. Procurou no banheiro, no outro quarto. Ninguém. Sem querer, olhou o armário dela e viu que faltavam roupas. Olhou para o outro lado e viu as chaves dela, intactas.
Finalmente ele estava só. Tinha a casa inteirinha para ele, poderia fazer tudo o que desejava. Ninguém mais entraria ali para desfazer dele mexendo em tudo o que era dele. Acabando com tudo o que ele amava tanto!
Foi quando sentiu um vazio imenso na barriga que parecia esmagar o coração.
A casa inteirinha. A cama inteirinha. A mesa, os armários, a comida, o salário, os dias, a vida.
Sem adeus ela tinha lhe devolvido tudo.

1 de papo!:

Universo Paralelo disse...

Talvez seja mais fácil não dizer adeus, mas a vontade de estar só, sem ninguem para nos incomodar é passageira, e quando dói, dói pra valer, ninguem quer ser sozinho, embora as vezes uma briguinha faz falta, mas é sinal de que não estamos sozinhos, adorei o texto, bom domingo! beijos

LinkWithin

Related Posts with Thumbnails