sábado, 1 de outubro de 2011

A Festa e a Anorexia

(Crônica de 2006)


Depois as pessoas se espantam que tanta gente esteja morrendo de anorexia por aí. Se adultos como eu já se sentem ameaçados pelo peso que ronda nossa existência, imaginem só os pobres adolescentes, meninas e meninos, tentando se encontrar entre um corpo e outro, entre uma idade e outra!
Ontem fui procurar uma roupa para uma festa. A bendita (ou deveria dizer maldita) festa de final de ano que toda empresa faz para que os funcionários gastem (com as esposas) e as funcionárias gastem (com elas mesmas) a metade do penúltimo e a metade do último salário do ano em roupas e acessórios para sorrir duas horas sob os símbolos e aura natalina.
Foi um entra e sai de loja. E eu com aquela ameaça de dor de cabeça. E com uma dor nas costas, tentando encontrar "a roupa" que ficasse entre o meu estilo e o não tão simplório (eu sou simples, paciência). Afinal é uma festa num hotel cinco estrelas, coquetel, jantar... Droga! Ai que raiva! Saudades da festinha de fim de ano na sala de um dos funcionários... Fica pra quem lembrar...
Eu podia ter dito não. Mas dizer não em situações deste gênero e, ainda por cima em empresas privadas, significa que você não é uma pessoa com "atitudes sociais". E uma pessoa assim geralmente "não é bem-vinda" para trabalhar. Entendeu a obrigação do convite? Entendeu você que, como eu, achou que eu deveria ficar em casa pra não gastar dinheiro e não chatear os outros escrevendo bobagem??
Continuando...
Eu poderia ter evitado todo transtorno de loja se eu não tivesse engordado. Porque eu tinha o lindo vestido do ano passado. Mas engordei e é um fato. O vestido do ano passado passou realmente a fazer parte do passado.
Já na primeira loja e na primeira vez que experimentei três roupas diferentes a constatação foi flagrante: elas não entravam em mim (para não dizer que eu não entrava nelas!). Um vestido preto de lacinho quase chegou a me dar uma crise de claustrofobia!
Na segunda loja, depois da coragem de perguntar para a vendedora: - cadê o tamanho maior desta aqui? Precisei de mais coragem ainda para ouvir:
- Ah, sentimos muito, mas não temos nada acima deste tamanho. Mas a "senhora" (bem salientado) deveria visitar nossa filial no andar de cima, temos vários tamanhos, inclusive o seu "estilo". Temos até o tamanho...
Marido abismado, bolsa na mão, subi.
No andar indicado dei de cara com a loja. Juro que eu quis sumir. Emagrecer seria muito pouco. Aí, não. Gorda já era ruim. Mas velha também?? Porque ali era a conhecida e cara loja para as gordas e velhas criaturas da cidade... Entrei. Nem olhei demais. Desta vez foi ele, o marido, quem me fez sair dali.
E foi indo para o elevador que achamos a tal da filial. Na verdade a anterior não era a tal. Era outra. Um pouco melhor. Ou menos pior. Mas agora a dor nas costas já tinha praticamente tapado os meus olhos e a primeira roupa com "tamanho único" e com jeito meio "noite e brilho" experimentei, entrou, peguei. Sentei. Ele pagou. E quase gritei. Quantoooo???? Mas já era tarde, e ainda faltavam os sapatos. Passou o tempo.
Quando cheguei em casa, desanimada, pensei em quando eu era menina, adolescente, tinha um monte de curvas e nem um pouco de raiva delas. Claro que fiz regime, toda adolescente um dia acaba fazendo. Mas sem excesso, sem este terrorismo da magreza que assola a sociedade atual. Hoje, aos quarenta e cinco anos continuo cheia de curvas. Bem mais preenchidas claro, mas continuam curvas. E conheço pessoas bem mais "preenchidas" do que eu e que se dão muito bem com a vida.
Mas a sensação horrível que eu sinto quanto entro numa loja para comprar uma camiseta, uma blusinha, qualquer coisa, ninguém me tira. Tem loja que é inteira cheia de departamentos de roupas de todos os tipos e, lá, bem no fundo, escondidinho quase, tamanhos maiores. Outras nem têm. E as vendedoras, vendedores, quando a gente ousa perguntar, olham para você como se você estivesse ali suplicando um milagre.
Nestes momentos revejo todas as modelos lindas desfilando aquelas roupas lindas naqueles desfiles lindos...
E eu também queria emagrecer... muito... e depressa... diminuir vários números da etiqueta...
E eu também acabo esquecendo o quanto sou legal dentro de mim e que por fora sou bonita do meu jeito.
Eu, que sou adulta.
E depois as pessoas se espantam que morram tantos de anorexia por aí...

(Ao som de Kool & The Gang Ft Sean Paul - Ladies Night)

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