quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Matilda e os livros

Matilda nem suspeitava que em épocas assassinas da nossa história livros tinham sido massacrados, execrados, queimados, destruídos. Muitas vezes. Não sabia ela também da importância dos livros, dos que podiam ter qualidade para uns ou para outros ou simplesmente fazer alguém se apaixonar. Livros eram capazes disto, de fazer apaixonar. Mas Matilda, do alto ...dos seus seis anos de idade, não tinha ideia alguma dos livros. Em sua casa os únicos livros que existiam serviam para segurar outros objetos. E só. Por isto, naquela tarde quando, com seus pais esperava o ônibus na rodoviária, vê-la jogada no chão, cheia de raiva, batendo cruelmente com um livro que acabara de achar no chão, não pareceu grande coisa. Matilda, manhosa, jogava o livro, esgaçava as páginas, esfregava no solo frio e sujo por onde passavam todos os outros que por ali esperavam, pacientes, o horário dos ônibus. Um senhor passou pela menina e ao vê-la em tal estado perguntou: Pequena, não gostou do livro? Seguiram-se adjetivos não condizentes com aquela figura diminuta. Falta de resposta dos pais, olhares desgarrados pelos espaços públicos, o pobre homem seguiu. Mas ainda teve tempo de ouvir o som das páginas que iam sendo ruidosamente rasgadas. Matilda não se formou professora ao se tornar adulta. Na verdade, foi aprender a ler depois de bem madura, quando já os quatro filhos que pusera no mundo tinham tomado jeito. Apaixonara-se por um livro encontrado na rua um dia, capa assim bonita e de um colorido meio triste. Levara para casa e o filho mais novo lera para ela o que vinha na primeira página: Este livro não foi esquecido, é um presente da autora para você. Mãe, dissera ele, você ganhou um livro! E Matilda pensara então que era hora de aprender a ler. Foi o primeiro verdadeiro encontro de muitos que se seguiram, harmoniosos, respeitosos e cheios de esperança, entre Matilda e os livros.

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