domingo, 4 de dezembro de 2011

O sono dos justos

Eram três da tarde. Seus olhos cansados fechavam um pouco, mas assim mesmo não dava o tempo de uma piscadela. O pensamento, muito mais rápido, tomava as rédeas e o trazia de volta. O mental. Era sempre isto. Tinha lido muito sobre o quanto o mental podia dominar uma pessoa. De certa forma, tudo o que tinha lido era negativo. Passava por sua cabeça o filme Laranja Mecânica e aquele último livro que tinha lido sobre um perseguidor psicológico implacável. Aliás, passava tudo por sua cabeça. Por seu estômago passava agora o remédio para dormir. Será que iria ficar lá, misturado ao suco gástrico, sem ao menos libertar a substância necessária para finalmente fazê-lo dormir? Deitou-se mais uma vez, colocou os óculos de lado e empurrou o livro. Ia tentar. Começou a imaginar-se ganhando na loteria, o prêmio bem-vindo, as surpresas que faria... Mas ele não tinha jogado. Droga! Era só para imaginar, para imaginar não precisa jogar. Então compraria aquela casa pela qual passava... Mas a casa não tinha jeito nenhum de estar à venda. De novo? Será que nem imaginar ele podia? Deu um pulo, levantou-se da cama e foi para a cozinha buscar um café. Dane-se. Três e meia e nada. Voltou ao quarto, pegou os óculos, trocou de roupa e saiu. Adormeceu no ônibus aproximadamente as seis e dez. Tentaram acordá-lo várias vezes no final da linha, já passava das duas da manhã. Enquanto ele fazia o agente secreto e tentava descobrir códigos de mísseis, a ambulância levava-o para o hospital. Acordou três dias depois com um sorriso feliz e um médico preocupado perguntando pelo suicídio. Suicídio? Não, doutor, foi um sonho. Eu consegui dormir. Mas você tomou muitos remédios para dormir. Ele riu. Muitos? Não, tomei só dois. É que fazia quase uma semana que não dormia, não aguentava mais pensar. Como assim, a caixa toda de remédios? Fiz isto é? Nossa... e nem percebi. Falava e sorria, feliz, descansado, lembrava-se do sonho. O senhor sabe que eu até sonhei doutor? Sabe há quanto tempo eu não sonhava? E se deixou ficar ali, entre os olhares preocupados do médico que via em seu olhar apenas mais um lunático e o relógio do quarto que mostrava três horas da tarde. Então fechou os olhos e adormeceu novamente, livre, completamente livre do mental e de suas sutilidades.

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