quarta-feira, 13 de junho de 2012

BREVE PASSEIO NO TEU INTERIOR

Eu não deveria, mas entrei. Num misto de angústia e ansiedade, na ânsia de redescobrir aquela alma com a qual, sem compreender o porquê, perdi o contato através do caminho. Antes me debrucei sobre a janela e, olhando o que meus olhos apenas tentavam ver, nada consegui. Ousei. Entrei.

Percorri o silêncio lentamente e dele comecei a fazer parte de tal maneira! As paredes estavam úmidas, num sinal de que a janela tinha sido aberta há muito pouco tempo. O chão, para meu espanto, parecia não existir. Eu flutuava, quase numa latência estranha. Mais meus pensamentos avançavam do que meus próprios passos.

Segui a trilha pelo último e luminoso ser ali deixada. E, qual surpresa foi a minha, estava ele ali silente e nem os olhos erguia. Como se tivesse adentrado um outro universo, apenas confabulava consigo mesmo. Ouvia a voz do seu pensar ativo, saboreava a imagem diante de mim. Mas não ultrapassava a linha invisível. Não era quem eu esperava encontrar... quem era? Eu o conhecia, certo. Mas o invólucro nada tinha a ver com o buscado, pois havia uma cortina descerrada e propositadamente exposta. Ainda assim, depois, minha satisfação conseguiu ser muito, muito maior. Segui.

Quanto ainda de longe, na dúvida intransigente do entrar ou não eu observara distante, tinha visto as paredes sólidas, a escadaria sem acesso, o edifício grandioso a esconder-se por entre outras paisagens. De tal forma ficava ele que se ornara quase totalmente obscurecido para a visão humana. Para ali chegar tive de optar por vários caminhos, pela noite ou o dia, tive que retirar árvores jogadas no chão, empecilhos certos para inoportunos e inesperados.

Nada serviu para me fazer desistir. Como minha certeza era grande, continuei impávida e venci a distância, os medos, as ameaças internas e externas. Minha certeza consistia unicamente em saber que aquele ser ainda poderia querer as mãos que somente outra alma tão antiga quanto a sua poderia lhe oferecer sem jamais pedir um retorno.

Dentro, os caminhos trilhados, os olhos fixados sobre a figura postada diante do inconfigurável, pude sentir o quanto não desejava mais sair. Certo, era diferente. Certo, não era eu uma presença exatamente solicitada. Mas sob o risco de nada fazer, fiz. Sentei-me e fiquei a observar, a esperar.

O tempo inexistente não me propunha pressa. Ali estava ele e bastava. Sabia que poderia ficar ali até nada mais ser. Mas ele subitamente ergueu os olhos e dirigiu-os a mim. Não tinha medo, nem me censurava. Analisava a possibilidade de permitir-me ultrapassar a linha. Não sorria, não falava. Pensava se seria possível deixar-me acompanhar suas mudanças e andanças.

Num instante sereno revi a alma companheira e sorri. Tinha a sensação da noite sem lua e estrelas, a sensação do invasor pego em flagrante, aguardando a pena que lhe seria infringida.

Quanta, quanta coisa senti: vontade de gritar, de falar, de sorrir, de chorar. Quantos gestos meus pediam: faz! E eu ali, muda, estática, cega pela insensatez do óbvio: não existia mais a janela e nem sequer a vontade do retorno. Enquanto ele ali estivesse, eu permaneceria.

Lá fora, ouvia o tilintar da chuva como se fosse um choro meigo. E como único elo com o exterior, era ela a música serena a me apaziguar a culpa.

Ah, se eu tivesse idéia... se ao menos tivesse medido as conseqüências!. Agora o tempo já havia fugido e as distâncias tinham partindo juntamente com outras linhas. Aqueles olhos me olhavam nos olhos e as mãos de antes me seguravam com uma força que somente o carinho dá. Tanto mudou lá fora e aqui dentro e nem sequer se pode saber outras respostas. E que importância, se estas mesmas mãos já me tinham enlaçado e amparado, já me tinham cuidado e sabiam que eu lhes pertencia. Embora eu não chorasse, lágrimas desciam em minha face e me davam a sentir a chuva.

Eu estava feliz. Eu estava chovendo.

Do livro Coracional, 2007


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