domingo, 17 de junho de 2012

Diferenças Irreconciliáveis

A inspiração, respiração seca do vento, havia batido asas. A caneta e o papel desmarcaram o encontro. Não houve despedida. Ele, sentado na cadeira dura tentava ainda catar dentro de si uma palavra ou duas que tivessem vontade de união, mas as palavras simplesmente se esquivavam umas das outras deixando os pontos todos sem ação.
Tomou um gole de café, um segundo e um terceiro goles às pressas. Não sentiu o gosto até tentar tomar mais um gole e ver que não tinha mais café na xícara. Afastou-a. Deixou-a lá, de castigo junto aos traidores de sua inspiração.
Reclinou-se na cadeira, fechou os olhos e começou a pensar no que seria dele sem escrever mais nada. O que faria, o que diria, o que seria. Abriu os olhos cheio de pavor e constatou que não existiria mais sem escrever. Ele simplesmente deixaria de existir, pularia fora do mundo. Neste instante sentiu a pontada conhecida que batia em sua cabeça. A dor batia à porta, provavelmente chamada pela preocupação.
Ele não esperou. Levantou-se, foi até o armário e pegou o comprimido. Engoliu sem água. Não desceu. Procurou pela água e encontrou-a sobre a mesa, ao lado de tudo o que atestava de sua pouca inspiração. Bebeu e voltou  a sentar-se.
Jogou a cabeça para trás, fechou os olhos e pensou nas diferenças irreconciliáveis que o estavam separando da inspiração. Haveria uma despedida formal? Ou seria simplesmente um abandono de lar? Por enquanto tudo o que ele sabia é que ela não se mostrava mais faceira e solta, a companheira com a qual se habituara ao longo dos anos. Estava fria e indiferente. Ausente mesmo.
Lembrou-se da mãe que cozinhava tão bem. Aliás, tão bem que ninguém mais nem percebia ou elogiava seus almoços e jantas, seus cafés da tarde e da manhã. Ela era uma pessoa inspirada e tudo o que todos viam era a rotina da mesa.
Rotina? Seria isto? Seria esta finalmente a causa da separação? Seria por isto que a inspiração, sempre tão causadora resolvera partir? Teria ele sucumbido à rotina e deixado de apreciá-la ao seu justo valor?
Ergueu-se e com passos rápidos alcançou a porta. Pegou o chapéu, colocou na cabeça, juntou as chaves e saiu.
Se fosse rápido e atentivo haveria ainda de alcançá-la. Afinal, não fazia tanto tempo assim que ela se fora. Bastava prestar atenção nos detalhes, talvez ela tivesse mesmo deixado migalhas para que ele fosse recolhendo até encontrá-la. Decidiu ir em frente. Sem caneta e sem papel. Decidiu buscar a inspiração apenas com o coração.
Seguiu.

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