sábado, 24 de novembro de 2012

Espera fatídica

Amália sentou-se mais uma vez. Era a terceira. Já estava ficando aflita. Tinha pedido para entrar e tinham negado: era melhor não, disseram. O marido nem chegou ainda, disseram. Mas e o que ela tinha a ver com isto? Queria estar lá dentro agora, dar a mão pra ela, assegurar aquele coração em agonia, dizer sorrindo que tudo ia dar certo. Levantou-se novamente. Vou pedir para entrar, que se dane! Caminhou em direção à porta branca e já ia bater quando percebeu o alvoroço. Era gente demais correndo. Uns vinham, outros iam, todos se chamando pelos nomes, dando nomes a fatos desconhecidos aos olhos de quem tentava entender o que se passava. Deu dois passos para trás, deu passagem para mais dois que corriam na direção da mesma porta. Sentiu um frio estranho, uma sensação ruim. Então decidiu entrar de qualquer jeito. Entrou. Entrou e viu a figura deitada, ventre sangrando, pernas ensanguentadas, muita gente ao redor se movimentando, gesticulando, falando. Mas nada tinha som. Nem mesmo a criança recém-nascida emitia som. Amália foi chegando mais perto, ninguém mais parecia se importar com ela. Queria ouvir a respiração da amiga, encontrar seu olhar. Mas os lábios e os olhos estavam cerrados. Em volta dela, as pessoas foram aos poucos partindo em silêncio agora. Um médico segurava a mão estendida na maca. Hora da morte: vinte e trinta e cinco, disse ele. Ela virou-se incrédula. Tentou alcançar a criança, mas uma enfermeira já tinha a tirado do berço improvisado. Seus passos foram os mais pesados de sua vida quando deixou o local. O coração pesava tanto e com tanta dor que ela não conseguiu sequer chorar. No corredor, enxergou o vazio: nem a família, nem mais amigos, ninguém para perguntar o que tinha acontecido. Ninguém para quem ela pudesse falar da dor infinita de perder alguém para a morte. Sentou-se pela quarta vez, as mãos inúteis sobre os joelhos que tremiam.
- A senhora é da família, ouviu a voz perguntar.
- Sou, ouviu-se responder mecanicamente.
- Nós sentimos muito, ela não conseguiu. Nem ela e nem o bebê. Era uma menina.
Duas lágrimas escorreram enfim pelo rosto de Amália. Uma chamava-se Luciana e a outra teria se chamado Eloísa. 

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