terça-feira, 19 de março de 2013

A viagem de Anita

Anita saiu de casa naquele dia com a intenção de não voltar. Levava na bolsa o pouco dinheiro que tinha e duas mudas de roupas; um par de sapatos e os óculos de leitura. Estava tão cansada da vida que levava que   a aventura lhe abanara através da televisão. Vira na novela a moça que largara tudo o que tinha para se entregar a uma nova vida, longe de tudo o que tinha. Resolvera fazer o mesmo e, sem avisar ninguém, juntara sua coragem com o pouco que a bolsa continha e saíra naquela manhã sem se despedir. A meio caminho de um lugar que ela não tinha a menor ideia para onde ia, Anita parou. Olhou o relógio velho que tinha no pulso e viu que ainda não eram nem dez horas da manhã. Desde que horas estava andando? Não sabia. Talvez desde as cinco, seis horas da manhã. Virou-se, voltou alguns passos e foi em direção ao ponto de ônibus próximo dali. Nas suas contas levaria quase uma hora para chegar em casa. Tempo suficiente para fazer o almoço. Dar uma arrumada nas coisas. Pensar no jantar. Esperar José chegar do trabalho. Ver a filha chegar da faculdade. Escrever uma carta para a outra filha que morava agora na capital. Pegando aquele ônibus Anita teria tempo suficiente de voltar a sua rotineira vida. Fez sinal para o ônibus que chegava e sorriu. Que aventura, pensou!, e entrou no veículo que a levaria de volta para casa, com a ansiedade de uma criança que agora tinha um segredo para guardar.

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