segunda-feira, 7 de outubro de 2013

A LITERATURA DE JACQUELINE AISENMAN

Márcio Almeida

Sobre Lata de Conserva
Com que leveza escreve Jacqueline Aisenman! Com que estilo viscoso atrai o leitor para contextualizar a imagética do seu pensamento! Com que nobreza ela trata a Literatura! Em meio a tanto experimentalismo e distorções que sangram talentos em vão, de rebuscamentos sôfregos da linguagem, de psicologismos que esvaziam o ser humano de sua essência até a medula do nada, - esta autora é simples com profundidade, mergulha onde a gente é por ser o que é e traz a verdade de cada um no que somos de humanidade.
São comoventes textos como Bilhete no caderno preto, Flor dos meus olhos, Frank e Lara, Diálogos supostos e Alice (brilhantes!), Era uma vez, Água no feijão, Insubordinação, A dançarina, Irrealidade, O calor do asfalto, Rictus, Comer e saborear, Lua de mel, Em preto e branco e tantos outros do livro Lata de conserva (Design Editora, 2011,Sc).
Jacqueline Aisenman escreve com uma dignidade impressionante. Escreve com visgo. Tem uma capacidade incrível de amarrar situações frásicas que prendem o olhar à razão leitoral. De coçar a curiosidade para pensar detalhes de personagens fugazes, que entram no contexto dos textos como bolhas. “Desculpe a demora para lhe retornar o caderno, mas com ele nas mãos, lembrei-me do seu rosto de todas as noites, folheando a lendo, seu rosto que nunca sorri enquanto toma o café e escreve. Mas notei que estava escrevendo num guardanapo” = insinuação de mestre, observação de voyeur. Deliciosa. “Já estava quase aceitando, quase tendo a certeza de que realmente seria capaz. Até que ela apareceu, lá do outro lado da calçada, com aqueles cabelos balançando e o sorriso que ele sabia que o mundo não tinha como imitar em outra pessoa” = um travelling antológico. Perfeito como uma cena de Antonioni. O realismo mágico, mas sobretudo, muito real de “A bailarina”. O mesmo realismo que aflora na “Irrealidade” e do realismo sensual-erótico subentendido de “O calor do asfalto”, belíssima síntese que vai se repetir em “Lua de mel”, por exemplo, que por sua vez remete ao realismo consentido de “Rictus”, que evoca a Lei Maria da Penha.
Em nível de narrativa curta a autora é mestre. Porque tem capacidade nata para a síntese-atômica, para o resumo-boom. Lata de conserva desintoxica a alma. Deixa o leitor feliz.
Menu: O calor do asfalto
Pisava descalça o asfalto. Era quente. E quente ainda estava por dentro depois de descer do caminhão. O calor do asfalto era pura sugestão.
Lua de Mel
Pijama ou camisola? Trocar no quarto ou no banheiro? Avisar? Perguntar? Como adivinhar? Passou tanto tempo pensando a respeito que nem percebeu que o tempo já tinha passado por seu corpo e sua vida, levando a primeira noite para um lugar longe, chamado nunca mais.
Frank e Lara, diálogos perdidos
- Frank, a loucura pode me levar a algum lugar?
- Pode, ela é um caminho.
- Há risco de eu me perder?
- Sempre há. Mesmo dentro de casa a gente pode se perder.
A dançarina
Era tudo uma grande mentira. O que era. O que pensavam que era. Tudo uma grande mentira. Ela dançava para viver e um dia havia amado a música. Hoje era só uma obrigação fazer o corpo dar voltas e os sons que a guiavam nada mais eram do que notas perdidas. Músicas cansavam e seu corpo precisava urgentemente de um descanso, que só o silêncio poderia trazer.
Irrealidade
Tomou um susto quando a viu passando tão perto. Era a mesma do primeiro dia, da primeira vez e do primeiro olhar. E cá estava ela, tão perto novamente do seu coração, separada apenas pelas circunstâncias de duas vidas que não se encontravam mais desde os tempos de antes. Seguiu adiante e virou-se para mais uma vez vê-la. Só para ter a certeza de que ela era real e que a irrealidade estava tão somente no instante em que havia pensado: nós!

Sobre Briga de Foice
Os leitores se identificam com as personagens de Briga de foice (Design Editora, 2012, Sc), que, como o anterior tanto pode ser um livro de minicontos quanto um romance desmontável, porque eles se interligam a lugares comuns do cotidiano em suas formas cruas e reais (há sempre um “vulto a povoar a escuridão dos meios sombrios”, p.43), melancólicas e tristes, alegres e humoradas, erradas e prazerosas, tortas e exemplares.
Nem todas têm tipicidades únicas, aliás, a maioria nem tem tipicidade alguma, podendo muitas serem encontradas na vidinha interiorana ou no tumulto metropolitano. O que as distingue, no entanto, são suas (des)razões de ser nas pinças da narrativa aisenmaniana, nos olhares de uma autora muito atenta ao modus vivendi da gente brasileira, mas também da gente estrangeira, a considerar sua experiência de 20 anos de moradora em Genebra. O que lhe importa fazer, em nível de personagens é valorizar o convívio entre as diferenças, o que Foucault denominou de heterotopia. Por isso, os fragmentos considerados pela autora constituem o que outrora Lukács nomeou de chantefables ou acontecimentos afeiçoados nos quais permanecem realidades isoladas típicas da representatividade da “objetivação épica” humana portadora de um sentimento infinito, cuja experiência vivida pelas personagens autoriza a qualquer um(a) o sentimento do mundo em nível individual, em sua significação secreta e pessoal.
Mesmo as situações caóticas vivenciadas pelas personagens raramente nomeadas por Jacqueline Aisenman “são reflexos de um cotidiano banal, que representa a angústia existencial” de um ser humano “desabrigado e fragilizado, tendo em vista que ele está despido de sua própria identidade em um mundo complexo”, diria Silva Oliveira(1). Por esse viés, porém, entrelaçam no livro figuras enigmáticas e nem tanto, quando também a persona da narradora-autora se põe a expor sua perplexidade ficcional em percepções que envolvem desde a condição das mulheres na pós-modernidade à de desfavorecidos socialmente, da prevalência de situações narrativas emblemáticas urbanas a um realismo feroz, de uma poeticidade estilística própria que ameniza a violência da própria realidade à tematização de sua própria escritura. Tudo em estado de tensão, mas com um jeito próprio de dizer sem agredir o leitor. Como alguém que não pede desculpa para ser realista e diz ”até a próxima tempestade” (p.23).
A verdadeira briga de foice ceifa tristeza e alegria, injustiça e engano, ilusão e surpresa, construção e arrependimento, ousadia e remissão, destino e sorte, princípio e desdém, impertinência e decomposição, filtro e esquecimento, superação e recomeço, enfim, humanidades.
Aisenman, sem ser em nada trágica nem cômica, mas encarnando a essência da linguagem micro para dizer muito, quer dizer, como disse Lukács (2), que “vegetamos sem lançar frutos ao rés do chão e longe do céu.”
Ela tenta – e consegue – salvar o sujeito comum, anônimo, do esquecimento da sujeição e da alegoria do nada, do sujeito que se apaga por falta de transcendência e do “delírio esquizofrênico” (p.39). Ela sabe que no pós-moderno o anti-herói, mas sobretudo a anti-heroína, é o(a) personagem que forja o (seu) cotidiano de surpresa com a força do seu sofrimento pela sobrevivência, pela consagração de sua diferença justamente por ser igual a todos os que lutam em aberto pela vida. A mãe que anuncia não ter em casa o que comer, no texto Balas perdidas (p.27); a vontade de “atravessar o túnel e desertar da infame vida nada fácil da cidade” (p.36); de sentir “a impressão de ser bailarina” e de em seguida ir servir café “p.37); da anunciação de “porque todos os seus filhos já estavam pela rua pedindo comida e dinheiro para melhorar a vida da casa e ela não tinha mais tempo nem vontade de passar aqueles primeiros anos de choro” (p.117); do cara cujo cheiro “era de suor e desodorante misturado com fritura” (p.193).
Tem-se uma certeza quando se lê Jacqueline Aisenman: “quanto mais o fragmento da vida é importante e pesado de sentido, mais será necessário que cresça a força desse lirismo imediato e manante. O equilíbrio da obra depende daquilo que se estabelece entre o sujeito que a cria e o objeto que ele apresenta e exalta (...); quer dizer na forma de narrativa que considera isoladamente o que a vida contém de surpreendente e de problemático, esse lirismo deve ainda dissimular-se inteiramente atrás das linhas rigorosas de um lado que o buril do artista isolou do todo” (Lukács).
Quem preferir poderá ler Briga de foice com as três dominantes propostas por Beatriz Resende (3) para se analisar a prosa contemporânea: a presentificação, que se dá no sentido de urgência, latência do presente no temário e nas formas da narrativa, incidente na minificção de Aisenman; a presença do trágico, contextualizada nas personagens, se bem que, aludiu-se, sem o rigor da tragédia visceral, amenizada por opção autoral; e a violência, recorrente à própria angústia existencial latente na grande cidade, na relação de troca, na inversão de valores e no não reconhecimento de valores.
Briga de foice é um livro para quem gosta de ler e acredita que a Literatura ainda existe - apesar dos críticos.
Notas
1. OLIVEIRA, Vanderleia da Silva. Caminhos da ficção brasileira: considerações sobre temas dominantes na prosa contemporânea. Universidade Estadual de Maringá, Anais, ISSN 2177-6350, jun.2010.
2. Lukács, Georg. Teoria do romance. Trad. Alfredo Margarido. Porto: Editorial Presença, 1962.
3. Resende, Beatriz. Contemporâneos: expressões da literatura brasileira no século XXI. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, Biblioteca Nacional, 2008.


Karaokê a capela
Escrevo porque é mais simples do que falar. É mais simples do que muita coisa. E quando não escrevo é como se sangrasse PA dentro numa hemorragia interna preenchendo todas as frestas que não têm como conter tanto sangue. Escrevo porque é a minha vida e a minha vida é soltar de mim o que só sai escrevendo. (...) Antes de soltar de mim as palavras, tenham elas o peso das âncoras. Sejam elas banhadas no mel. Possam elas ancorar seguras no coração de quem me ouve. (...) A pior palavra é a que você não quer ouvir. (...) Não existem palavras silenciosas. No momento exato em que você decidiu ser algo mais do que a sua imagem no espelho, os seus gestos irão tocar alguém. Isto é vida. (...) As palavras saem do fundo da mente ou do fundo ventre. De quem mente ou de quem sente. As palavras soam, zoam, passam, vibram, voam...(...) No meu silêncio encontram-se palavras que não querem vida: não querem sair, não querem dizer, não querem tornarem-se vivas. No meu silêncio as emoções circulam sem se fazer notar. E dentro dele, do meu silêncio, consigo existir sem a ameaça dos ecos. (...) Palavras devem ser bênçãos, jamais maldições.
Contato com a editora: www.designeditora.com.br
Com a autora: coracional@bluewin.ch

Márcio Almeida é mestre em Literatura, escritor, crítico de raridades. marcioalmeidas@hotmail.com


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