segunda-feira, 3 de março de 2014

A noite de carnaval



Ô abre alas que eu quero passar...
A noite tinha estrelas, nenhum sinal de chuva, muita gente nas ruas coloridas de luzes e desenhos multicores.
Rádio Difusora de Laguna, com vocês neste carnaval!
De um lado da calçada o locutor animado ia falando da alegria dos foliões, da festa que estava para ter seu ápice dali a instantes com o desfile dos blocos de rua. Um pouco mais adiante, embalados pelo etéreo do álcool, da noite e do momento, muitas pessoas circulavam em passos inventados...
... O teu cabelo não nega mulata....
Por toda a rua e bem mais além as alegres músicas proporcionavam o efeito principal da Festa de Momo. Cores e canções, sorrisos na folia.
Alegria pessoal! Com a Rádio Garibaldi no ar durante toda a noite!
O povo ocupava toda a rua da Matriz, ia fazendo a curva pelo comecinho da Rua do Fogo, espremia-se por toda a rua da Miscelânea, ia se apertando, apertando e terminava no fim da rua Raulino Horn, já na beira da pracinha. Lá se via as pessoas apressadas para chegar ou partindo já fatigadas.
Se você fosse sincera, ô ô ô ô Aurora, veja só que bom que era... ô ô ô ô aurora...
E aí minha gente, prontos para a enorme emoção? A Rádio Difusora acompanha com você o carnaval lagunense!
A Colombina pergunta ao Havaiano:
- Quem desfila primeiro?
- O Brinca.
- Quem brinca? – diz intrometido o turista confuso.
- Ninguém... todo mundo...ora! O Brinca é o Bloco, o primeiro a desfilar hoje!
- Ah...!!!
Todos os bares estavam cheios, todas as almas estavam cheias, toda a cidade estava cheia de expectativa. Cada carnaval é um só e tem tanta sede junta perto deste pote como o mundo inteiro nem tem. Sede de vida, de energia, de descontração.
Quanto riso, oh!, quanta alegria, mais de mil palhaços no salão...
A festa é o espírito gigantesco de animação que aos poucos vai tomando o povo e construindo inesquecíveis sonhos despertos...
Eu sou aquele pierrô, que te abraçou, que te beijou meu amor...
Rádio Garibaldi de Laguna, junto com você lagunense e com você, amigo visitante, vê passar neste momento o Brinca Quem Pode! E olha lá turma animada, vem junto todo o luxo do Bola Branca! A rainha este ano é a filha do seu Dino!
- Quem é o seu Dino? – o visitante perguntava a si mesmo em voz alta.
- Não sei... tá vendo alguma bola branca? – outro visitante comentava.
... Mamãe eu quero mamar... dá a chupeta, dá a chupeta, dá a chupeta pro bebê não chorar...
Carnaval em Laguna. Samba, suor e cerveja que nem na música que veio bem depois. Chorinho, frevo, samba, muita mistura, a cadência tinha pouca importância... o efeito era o mais importante. O ritmo sempre de euforia.
A estrela Dalva, no céu desponta e a lua anda tonta com tamanho esplendor...
As ruas repletas e os salões cheios de confete e serpentina à espera dos foliões que aos poucos iam chegando. Tribos inteiras de índios e beduínos; misteriosas ciganas e bruxas; descontraídos havaianos abraçados a belas princesas.
Nas ruas, os blocos desfilando em busca da conquista de mais um título.
... Eu perguntei ao mal-me-quer se o meu bem ainda me quer e ele então me respondeu que não...
O cordão de mascarados desfilava sem compromisso pelo meio da rua. Por ali navegavam marinheiros e piratas, saltitavam flores, corriam gatos e pierrôs. Todo o planeta e suas épocas.
- Que demora do outro bloco!
- Pergunta ali pro cara da rádio qual é o próximo.
- Eu não! Espera que ele fala!
É com a rádio Difusora, minha gente. Carnaval com o melhor acontecendo. Esperem aí, vão esquentando que vai chegando o Xavantes!
Cordão do Bola Preta, que não teme careta e na roda do samba é bamba, que não pode não se meta no cordão do Bola Preeeeeeetaaaaaaaa, é baaambaaa....
Vem com a gente meu povo! Rádio Garibaldi entra no samba, atravessa a avenida e vai dentro do cordão!
- Aí Nicolau, quem deu a ideia de trazer o bloco todinho de Minas do Rei Salomão?
- Que Minas, Toninho? Tá doido? A gente tá tudo vestido de russo! O nome é Casamento Russo, não tá vendo não? Minhas do Rei Salomão é o pessoal do Bola Branca que tá fantasiado... Tava bebendo quando eles passaram é?
- Xi... fala baixo, Nicolau. Olha o povo ouvindo. Ouvintes da Garibaldi, continuem com a gente. Toca a música Arnaldo!
... Hoje eu não quero chorar, hoje eu não quero sofrer... deixei a tristeza lá fora, mandei a saudade esperar, lá lá lá lá ....
- Afinal, quem acabou de passar? Bola preta de Minas, bola branca do Salomão... e cadê o Xavantes?
- Desculpe me meter na conversa dona, mas eu sou daqui da Laguna. Passou o bloco do Bola Preta tudinho fantasiado de russo. E o Xavantes, dona, são aqueles ali, logo atrás, tão vindo ali é, aqueles tudinho de índio. Bonito, né... é o meu bloco!
- Agora eu tô entendendo. É bonito mesmo moço!!
... Este ano não vai ser igual aquele que passou... eu não brinquei... você também não brincou...
Fiquem com a Difusora, amigos. Competência é aqui. Na nossa rádio russo não chega nem perto das minas do rei Salomão. Tá certo ou não tá, Nicolau?
- É isso mesmo. O Toninho lá da Garibaldi queria queimar a gente. Quase escangalhou o bloco!
- E quem desenhou a fantasia de vocês?
- Foi a gente mesmo. Ideia de um, ideia de outro, a gente juntou tudo e deu certo.
Carnaval é cheio de fantasias assim: idéias de purpurina bordadas com lantejoulas de boa vontade, costuradas nos tecidos de cetim e de sonho. Depois são vestidas e cada coração dá vida...
A mesma máscara negra que esconde o teu rosto eu quero matar a saudade... vou beijar-te agora não me leve a mal hoje é carnaval...
Misturavam-se as músicas dos blocos de rua, das cantorias nas casas e das bandas furiosas que iniciavam o carnaval dos salões.
Vem chegando a madrugada ô, o sereno vem caindo...
Os palhaços deitados no meio do jardim riam e cantavam ainda. Junto deles rolos de serpentinas se espreguiçavam no chão. A bailarina coberta de confetes dançava de mãos dadas com o rapaz sem fantasia. Um pouco mais longe todo um time da seleção brasileira de futebol vinha jogando a alma fora, suando a camisa de Momo. O padre de batina marrom ria e o diabo vermelho ria também... com eles as bruxinhas recém saídas do salão. Os árabes cambaleando e cantando paravam para saudar cada colombina, cada vedete de cinema. Chaplin sentado no chafariz olhava cansado passar a menina disfarçada de palhaço.
Quem sabe, sabe, conhece bem, como é gostoso gostar de alguém...
Madrugada entrando os blocos terminavam de desfilar. Para alguns, hora de ir para casa, trocar de roupa e ir para o clube. Ainda. Para outros o sono esperava já nos cantos das ruas.
- E aí Toninho, amanhã de novo com a Garibaldi na rua?
- Eu hein! Me mandei de lá. Começo amanhã mesmo um novo programa de carnaval na Difusora.
- Ué, mais um outro programa de músicas de carnaval?
- É...
- Mas já não tem o Leonel lá fazendo um?
- Tinha, agora ele foi pra Garibaldi fazer o jornal das sete e meia.
- Mas Toninho, da última vez ele não disse que não pisava mais lá?
- Disse. Só que nós dois na mesma rádio não dá. E como o Leonel tá de saída, eu tô entrando. E te digo uma coisa, se aquele sujeito pensar em voltar eu vou pra Tubarão e pego um empreguinho lá na Tabajara.
- Mas lá tem programa de carnaval assim na rua?
- Pois é... o negócio é o carnaval...
Tudo é carnaval, tudo é carnaval, vamos embora pessoal!!! Tudo é carnaval, tudo é carnaval...

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