quarta-feira, 2 de julho de 2014

Tempo nublado com ameaça de tempestade

Marilu estava deitada ainda. Eram oito horas da manhã. Já. E ela sem vontade de levantar. A agonia no peito não partia nem com os olhos fechados, a cabeça enterrada no travesseiro. Os pensamentos vinham incessantes e como laços de corda puxavam sua cabeça sempre para o mesmo lugar. Não havia como descansar nem o corpo e nem a mente. Estava assim há dias, levantando vez ou outra, voltando para a cama sem vontade de nada. Há dias também não olhava os e-mails, não descia para ver a caixa dos correios. Não atendia a porta. Seu lado lúcido afirmava a depressão e lhe pedia para se erguer, tomar um banho e providências. Seu outro lado, aquele lado que ela desconhecia e tomava a dianteira de seu comportamento... este outro lado só queria a escuridão do quarto. Não enxergava esperanças. Não via saída. Não era a primeira vez, mas desta vez Marilu não estava conseguindo se reerguer.
Continuou assim por dias. Dias e dias. Até o instante em que ela mesma não se suportava mais. Não queria o mar de álcool em que poderia se afogar para sempre. Não queria também a morte que acenava de tão perto, de tão perto que quase conseguia alcançar seus braços. Queria viver! Queria tentar! Queria enxergar mais longe, ver qualquer coisa que pudesse tirá-la daquele poço.
Levantou, as pernas meio bambas. Acendeu a luz, tirou as roupas, abriu o chuveiro e entrou de cabeça. Enquanto a água caía ela se deixava lavar, corpo e alma, como se aquela água santa pudesse efetivamente tirar dela a casca imunda e profunda da depressão. Ficou ali um tempo indefinido. Quando saiu do banheiro, ainda nua, andou pela casa abrindo janelas e respirando o ar puro que por elas entrava junto com a luz do sol que não via há tempos. Não tinha com ela nenhuma solução para o que estava enfrentando. Não estava esperando milagres. Mas de repente sentiu uma força brotar do peito. Era pequena, abafada como a respiração ofegante que saía do seu peito. Mas era força. Força de vontade de vencer esta batalha que ela encarara até então como a pior das guerras.
Marilu vestiu uma blusa, a velha calça que tanto amava e sorriu brevemente. Ela era uma batalhadora. Uma lutadora. Uma vencedora. E não se entregaria nem mais um minuto. Voltaria à tona levasse o tempo que fosse. Encontraria soluções, levasse o tempo que fosse. E então poderia novamente ir dormir, cabeça livre de pensamentos turbulentos, e esperar por uma manhã de sol.
 


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