quinta-feira, 10 de setembro de 2015

SAPATOS VELHOS

 
(Texto de 2011)

O melhor motivo para jogar um sapato velho fora é a vontade de preparar o espaço para um novo. As maiores desculpas para guardá-lo são o medo dos calos, a preguiça de sair para comprar outro e, a pior de todas, a acomodação. Sem falar do medo que temos de simplesmente mudar. Todas as vezes que estamos numa situação em que damos de cara com o sapato velho e, necessitados urgentemente de um novo, não sabemos o que fazer, remetemos a situação para a próxima vez. E o deixamos lá. Gasto, furado, remendado. Mas jamais trocado ou traído. Traímos nossos pés, mas nunca os sapatos velhos.
Como não traímos os médicos que temos desde os tempos da antiguidade e que nem sabem mais o que nos receitam porque, de tanto nos ver já nem se importam com o que temos os não. Como não abandonamos nunca os chamado amigos que quase sempre nos deixam na mão nas horas em mais precisamos. Como não largamos mão outros tantos, amigos, colegas, familiares, que afundam facas em nossas costas cada vez que nos viramos para olhar o horizonte.
Como continuamos a trabalhar sem reclamar para pessoas que não nos dão a menor importância mas valorizam qualquer deslize que cometemos. Preferimos manter tudo o que foi estabelecido em torno de nós: porque assim crescemos e assim fomos educados. Para não ser indelicados, não mostrar desagrado, não provocar.
Temos preguiça, nos acomodamos, sentimos pena, pensamos nos “porquês” e não nos damos sequer ao trabalho de responder para nós mesmos. Deixamos nossos armários cheios de sapatos, alguns tão desnecessários que, só de olhar, já sabemos o mal que vão nos causar. Outros guardamos porque são bonitos e fazem bonito aos olhos de quem nos vê com. Sapatos velhos não são eternos mesmo que extremamente bem conservados. Sapatos novos fazem calos.
E muitas vezes temos que jogá-los fora, trocar, doar, mesmo novos. Comprar outros logo em seguida. Tentar de novo. E de novo. Mas o prazer da renovação vale a pena. Renova-se os pés e a cabeça. E afinal, nada disso impede que se guarde um chinelinho daqueles do tempo de... você sabe... bem guardados no fundo de nós ou do armário, para aqueles momentos especiais.

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